Você gravou um vídeo de um minuto sobre angústia. Assistiu. Assistiu de novo. Começou a reparar na voz, nas pausas, no rosto. Apagou.
Você passou duas horas escrevendo uma legenda. Escolheu cada palavra, citou um autor, revisou para não simplificar demais. Publicou. Vieram algumas curtidas e nenhuma mensagem. Por fora, fingiu que não ligou.
Você contratou alguém para cuidar das suas redes. Recebeu posts visualmente organizados, mas cheios de frases que poderiam pertencer a qualquer profissional. Sua escuta e seus anos de leitura desapareceram dentro de um perfil bonito e vazio.
Você viu uma profissional com menos formação falando de ansiedade em frases simples e com a agenda cheia. Sentiu incômodo, crítica e inveja ao mesmo tempo. Depois sentiu culpa por ter sentido tudo isso.
No almoço de domingo, alguém perguntou se o consultório estava cheio. Você desconversou. A pessoa insistiu que hoje é preciso aparecer. E anos de estudo pareceram se resumir a não saber usar uma rede social.
Nenhuma dessas cenas prova falta de competência clínica.
Elas revelam uma distância entre o trabalho que você sabe realizar e aquilo que alguém consegue perceber antes de conversar com você.
68%
dos psicanalistas ligados ao IBCP que responderam à nossa pesquisa disseram publicar, no máximo, algumas vezes por ano. A maioria não depende de um caminho próprio e previsível para ser encontrada — depende de indicação, de uma instituição ou de alguém lembrar do seu nome no momento certo.
Não há problema em receber pacientes por indicação. O problema é esse ser o único caminho.
A pessoa que precisa de ajuda não consegue reconhecer uma escuta que permanece invisível.